Estudo mostra como a respiração lenta induz tranquilidade

Tente. Respire lenta e suavemente. Uma sutil sensação de calma aparece. Agora respire rápida e freneticamente. Tensão eleva. Por que? É uma questão que nunca foi respondida pela ciência. Até agora.

Em um novo estudo, pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford identificaram um punhado de células nervosas no tronco cerebral que conectam a respiração ao estado da mente. O artigo com os resultados da pesquisa foi publicado em março deste ano na Revista Science e tem autoria do PhDs Mark Krasnow e Kevin Yackle.

Geralmente, os profissionais médicos prescrevem exercícios de controle de respiração para pessoas com distúrbios de estresse. Da mesma forma, a prática do pranayama – controle da respiração voltado para levar a consciência de um estado enérgico ou mesmo frenético para um mais meditativo – é uma técnica de praticamente todas as modalidades da ioga. “Este estudo é intrigante porque fornece uma compreensão celular e molecular de como isso poderia funcionar”, explica Krasnow.

O pequeno conjunto de neurônios que conecta a respiração ao relaxamento, à atenção, à excitação e à ansiedade está localizado no fundo do tronco encefálico. Apesar deste conjunto, chamado também de cluster, ter sido descoberto em ratos, uma estrutura equivalente já foi identificada em humanos.

Segundo Krasnow, o cluster tem, em alguns aspectos, um trabalho mais difícil do que a sua contraparte no coração. “Ao contrário da continuidade do coração, que é unidimensional e varia entre lento e rápido, existem muitos tipos de respirações: regular, animado, suspiro, bocejo, soluço, ofegante, de sono e de risada. Nós nos perguntamos se diferentes subtipos de neurônios dentro do centro de controle respiratório podem ser responsáveis ​​por gerar esses diferentes tipos de respiração”, reflete.

Com esse intuito, os pesquisadores identificaram diversos genes ativados pelo centro de controle de respiração. O termo técnico deste centro é o complexo preBötC. Desses genes, foram encontrados mais de 60 subtipos neuronais separados, fisicamente diferenciados uns dos outros por suas assinaturas de ativação de genes, mas misturando-se no preBötC como fios de espaguete.

Agora, os cientistas poderiam avaliar sistematicamente o papel de cada subpopulação neuronal em ratos de laboratório. Com tecnologias avançadas, eles poderiam destruir seletivamente qualquer um desses subtipos neuronais e observar como a perda desse subtipo particular afetaria a respiração dos animais. Em 2016, com colaboração de Jack Feldman, professor de neurobiologia na Universidade da Califórnia em Los Angeles, conseguiram isolar uma subpopulação de neurônios no preBötC que controla apenas um tipo de respiração: suspiro. A eliminação desses neurônios retirou o suspiro do sistema, mas deixou outros modos de respiração intactos.

Os pesquisadores então se propuseram a descobrir o papel respiratório de outra subpopulação de cerca de 175 neurônios preBötC distinguidos pela sua expressão compartilhada de dois marcadores genéticos chamados Cdh9 e Dbx1. Os investigadores supuseram que, em vez de regular a respiração, esses neurônios estavam espionando-a e relatando os resultados para outra estrutura no tronco encefálico.

Essa estrutura, chamada de locus coeruleus, envia projeções a praticamente todas as partes do cérebro e desencadeia um estado de atenção: o despertar do sono, o estado de alerta e, em excesso, ativa a ansiedade e angústia. Sabe-se que os neurônios no locus coeruleus exibem comportamento rítmico cujo o tempo está correlacionado com o da respiração. “Se algo está prejudicando ou acelerando sua respiração, você precisa saber de imediato. Esses 175 neurônios, que dizem ao resto do cérebro o que está acontecendo, são absolutamente críticos”, diz Krasnow.

“O preBötC agora parece desempenhar um papel fundamental nos efeitos da respiração na excitação e emoção, como é visto durante a meditação. Esperamos que a compreensão da função desse centro conduza a terapias para estresse, depressão e outras emoções negativas”, finaliza Feldman.

Fonte: Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford